Ineficiência, preço e margem: a Reforma Tributária como teste de competitividade

A Reforma Tributária ainda é tratada, por muitas empresas, como um desafio técnico de adaptação de sistemas, documentos fiscais e obrigações acessórias.

Essa dimensão é importante, mas não esgota o problema.

Em matéria publicada no Valor Econômico, assinada pela jornalista Marta Watanabe, o economista Bernard Appy, ex-titular da Secretaria Especial de Reforma Tributária, chama atenção para um ponto mais amplo: as empresas precisarão se posicionar diante dos efeitos estruturais da mudança.

Segundo Appy, é natural que o momento atual gere ansiedade. Ainda há sistemas sendo implementados, regulamentos em desenvolvimento e dúvidas operacionais relevantes.

Mas a preparação não pode ficar restrita à adequação técnica. Como afirma o economista, as empresas precisam avaliar “seus preços e margens” e também “o modo de fazer negócio”, considerando a mudança estrutural em relação ao modelo atual.

A frase mais forte da análise resume o alerta: “quem é muito ineficiente pode quebrar”.

Com a substituição de PIS, Cofins, ICMS e ISS por CBS e IBS, em um modelo de IVA com não cumulatividade ampla, tributação no destino e desoneração de investimentos, a lógica econômica das cadeias será reorganizada.

A eficiência como estratégia de sobrevivência

Empresas que se posicionarem tarde poderão enfrentar consequências relevantes:

· perda de competitividade;

· pressão sobre margens;

· necessidade de reprecificação;

· renegociação com fornecedores;

· perda de espaço para concorrentes mais preparados.

No novo sistema, a competição tende a ser menos protegida por distorções tributárias e mais dependente da eficiência real de cada negócio.

Empresas que hoje sustentam parte de sua margem em regimes cumulativos, estruturas pouco transparentes, distorções regionais ou baixa gestão de créditos podem ter sua posição revista durante a transição.

O impacto também chega às compras.

Na mesma matéria, Eduardo Fleury, titular do Fleury Advogados, destaca que as empresas precisarão precificar não apenas suas vendas, mas também suas compras. Isso significa calcular o efeito da Reforma sobre os custos e observar como os fornecedores serão impactados.

No novo modelo, fornecedores poderão passar a aproveitar créditos que hoje não recuperam. Em mercados competitivos, esse ganho pode abrir espaço para negociação de preços.

Um fornecedor aparentemente mais barato pode não ser o mais eficiente se gerar menor aproveitamento de crédito ou comprometer a estrutura de custos da cadeia. Da mesma forma, uma empresa que não revisar sua formação de preços pode perder espaço para concorrentes que ajustarem antes seu modelo comercial.

A reação inicial de muitas empresas será tentar negociar melhor com fornecedores, preservando seus preços de venda. Fleury aponta que essa postura é natural, mas exige análise do momento correto de ajuste.

Em setores mais competitivos, antecipar a revisão de preços pode ser uma forma de ganhar mercado. Em outros, o desafio será proteger margem, revisar contratos e construir cenários antes que a mudança produza efeitos financeiros mais intensos.

Para o Comitê Tributário Brasileiro, esse debate reforça a necessidade de tratar a Reforma Tributária como uma mudança econômica, e não apenas fiscal.

O desafio não está apenas em adequar sistemas ou cumprir novas obrigações. Está em compreender como IBS e CBS afetarão preço, margem, fornecedores, créditos, caixa e modelo de negócio.

Fonte: Valor Econômico