A falsa calmaria da Reforma Tributária e o risco de subestimar seus impactos financeiros

A Reforma Tributária já deixou de ser um tema restrito aos departamentos jurídico e fiscal.

Ela entrou na agenda das lideranças empresariais, mas ainda não provocou, na mesma proporção, mudanças concretas na forma como muitas companhias planejam caixa, preços, fornecedores, contratos e investimentos.

Esse descompasso foi abordado por Murilo Tambasco, economista e sócio da BPCT Consultoria Econômica, em artigo publicado no Valor Econômico, sob o título “A ilusão da calmaria da reforma tributária”.

A análise chama atenção para uma percepção perigosa: a ideia de que ainda existe tempo confortável para adaptação. Como resume o autor, “o problema já começou”.

O período inicial da Reforma, marcado por testes, obrigações acessórias e destaque dos novos tributos nos documentos fiscais eletrônicos, não deve ser lido como uma etapa passiva.

A ausência temporária de recolhimento integral não significa ausência de impacto. Significa uma janela curta para ajustar estruturas antes que o novo modelo passe a operar com maior intensidade.

Tambasco alerta que interpretar esse período como simples fase de observação talvez seja “o maior erro corporativo” em curso.

A transição para o IVA dual, com IBS e CBS, altera a lógica da cadeia econômica. O crédito tributário deixa de ser apenas um registro contábil e passa a funcionar como ativo estratégico.

A adaptação dos fornecedores como estratégia

Empresas que não estruturarem corretamente fornecedores, documentação fiscal e governança de créditos poderão enfrentar consequências relevantes:

·       perda de competitividade;

·       pressão no capital de giro;

·       deterioração de margem;

·       redução da eficiência fiscal da cadeia;

·       maior exposição a riscos operacionais.

No novo sistema, o cliente corporativo tende a avaliar não apenas o preço bruto de um fornecedor, mas sua capacidade de gerar créditos dentro da cadeia. Esse ponto muda a lógica comercial.

Um fornecedor mais barato pode se tornar menos competitivo se entregar menor eficiência creditória. A Reforma, portanto, não reorganiza apenas tributos. Ela reorganiza relações comerciais, incentivos econômicos e formação de preços.

O impacto também chega ao caixa

Falhas no aproveitamento de créditos, descasamentos entre pagamento e compensação, atrasos em ressarcimentos e novas exigências operacionais podem gerar necessidade adicional de capital de giro.

Tratar a transição apenas como compliance é insuficiente. A adaptação exige uma leitura integrada de diferentes áreas da empresa, incluindo:

·       revisão de contratos;

·       formação de preços;

·       análise de fornecedores;

·       logística;

·       sistemas;

·       obrigações acessórias;

·       planejamento financeiro.

Para o Comitê Tributário Brasileiro, esse debate reforça a necessidade de preparar lideranças, profissionais e empresas para uma leitura ampla da Reforma. O desafio não está apenas em compreender a norma, mas em antecipar seus efeitos econômicos, financeiros e operacionais.

Fonte: Valor Econômico